Monumentalidade como coletividade
50 anos do MASP na Paulista

(em construção)

Fui convidada pela curadoria do MASP a realizar um ensaio fotográfico livre para uma publicação por ocasião dos 50 anos do edifício na Avenida Paulista. Como é de praxe no meu trabalho, me organizei para frequentar periodicamente o espaço e, a partir desta aproximação rotineira, desenvolver um exercício de observação.
Passei um mês hospedada em São Paulo, um mês no museu. Desde o princípio, ficou claro que o meu projeto não se contentaria em retratar apenas a arquitetura. O que faz do MASP um ícone não é só a edificação, mas seu corpo ativo na sociedade, composto pelas pessoas que o frequentam, mas especialmente por aquelas que o habitam e que atualizam a sua história a diário. Quis então conhecer o museu guiada por quem nele trabalha. Entre outubro e novembro de 2018, convidei todxs xs trabalhadores a participarem voluntariamente da minha proposta. Eu queria fotografá-lxs em algum lugar próprio, de relevância, para que eu pudesse conhecer o prédio através de suas escolhas e relatos pessoais e profissionais. Pedi que cada um dirigisse o seu retrato, escolhendo também o enquadramento e o figurino. Eu me contentaria em observar, escutar e registrar. A história simultânea, a vivida e a narrada. A história e as estórias. Retratos sem hierarquia feitos pelo prédio. Dentro e fora. Não-lugares que viram lugares para quem lhes dá sentido. Segredos compartilhados em lugares públicos.
A ênfase deste projeto é o ritual, a preparação, o seu caráter performático. Eu quis que a imagem aparecesse apenas no final, após a revelação dos negativos, quando já de regresso à casa. Também quis uma maneira não bidimensional de registrar os nossos encontros. Todxs foram convidadxs a gravar em áudio o que imaginavam ser a sua fotografia; que descrevessem o porquê do lugar escolhido para o retrato. Colaboraram no total 139 trabalhadores. Convencionalmente, algumas fotografias não deram certo, sejam por rolos queimados, vencidos, arranhados ou mal fotometrados. Mas daí penso o que seria hoje uma imagem que dá certo. O trabalho não é sobre a imagem em si, mas sobre o trajeto para se chegar até ela e depois tudo o que daquele trajeto ela contém.
As relações com as pessoas e os lugares extrapolam o quadro e perduram. Assim fui conduzida a cantos e paisagens inimaginadas e passei a pertencer ao todo.
Este projeto é uma homenagem aos 50 anos do edifício da Dona Lina e um salve a todxs que fazem parte dessa história, eu incluída.

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Monumentalidade como coletividade

O prédio de meia-idade, meio século. Nem faz tanto tempo assim. O desmanche do antigo belvedere, ainda vivo na lembrança das crianças de ontem, e o levante da caixa flutuante. O índice e o ícone. O monumento carrega a história que parte do povo rapidamente esqueceu. A escada em L na arquitetura moderna, com vocação a púlpito. Dela se vê o vão magistral, intervalo pulsante entre avenida e infinitos edifícios, onde repousa a pedra. O fluxo, as pessoas, os burburinhos e a pedra. Um monolito insólito, improvável, silhueta gorda, testemunha vertical de um sem fim de coisas. Com pedrinhas ao redor que parecem presentes de natal. O vão palco, cenário, plateia das frequências ritmadas que fazem da laje um lençol. Estrutura dinâmica que abriga esquerdas e direitas.
Dos registros de sua construção, homens, sempre eles, devidamente identificados, até aqueles que mal se veem as canelas. Já a mulher de corpo inteiro no canteiro da obra, anônima. A exceção é a Dona Lina, que mesmo assim se chamava e era chamada de “o arquiteto”.
O belvedere é o vão. 50 anos depois. Muitas pessoas que não participaram dos fatos não se sentem parte da história. Dentro e fora do museu, personagens e ameaças se repetem, ou quem sabe nunca saíram daqui. Mais um golpe, velho discurso de ódio. O prédio de colunas vermelhas deve ser chamado de comunista outra vez. A pedra amanheceu pixada com uma foice e um martelo. Ela e as paredes daqui certamente se lembram do que parte do povo rapidamente se esqueceu. Povo que desce na estação Trianon sem notar que ali é o lugar para onde a Dona Lina queria que o povo fosse.
Arquitetura para abrigar e fabricar história. Corpo presente no espaço da cidade. Monumento quer dizer advertência! Monumentalidade como coletividade, disse o engenheiro Suzuki após Lina Bo Bardi. Corpo vibrante de concreto, vidro, obras de arte e gente, muita gente.
A pedra repousa na palma da mão da arquiteta. Tal fotografia indica a porta do banheiro das funcionárias e vigia o corredor estreito. A intensidade da mirada da autora daquele lugar é uma presença penetrante que transcende tempos e materialidades. Ainda bem, porque o anacronismo é grande. 50 anos que vão e vêm numa velocidade estrondosa.

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Agradeço ao MASP pelo convite, apoio e acolhimento, permitindo que eu também faça parte de sua história; axs 139 trabalhadores que participaram voluntariamente deste projeto; a Leonardo Antiqueira, Marcello Israel, Paulo César Mafra de Matos e Oswaldo Lara, ainda que não impressos em papel; a Marcelo Suzuki, Marina Grinover, Nair Benedicto e Roberto Rochlitz pela generosidade; a Natália Tonda pelos filmes extras; a Ímã, Gibo e Bete Savioli pelos serviços laboratoriais; a Júlia Vaz pela hospedagem em São Paulo; a Nico Espinoza pelas gravações em áudio e pela parceria e amor 24/7; e a Pilar, nossa parceirinha e assistente.
Agradecemos à Dona Lina e ao Professor Bardi.